Vinho Marsala: como é feito este clássico siciliano

vinho marsala

O vinho Marsala é um vinho fortificado, um clássico da Sicília. Ele recebe o nome da cidade onde “nasceu”, Marsala, uma bela cidade do oeste da ilha.

É uma área onde, há muito tempo, desde os primeiros habitantes a povoar estas terras, as uvas no quintal e o vinho na mesa sempre representaram algo muito importante.

Hoje em dia, o vinho Marsala deve ser considerado o resultado de muitos acontecimentos, como a intuição de brilhantes empreededores que conseguiram promover um tesouro escondido. Mas vamos à história.

A história do vinho Marsala

Estamos em 1773 e um navio mercante de bandeira inglesa atraca no porto da cidade de Marsala, por causa de uma tempestade. Seu destino final era Mazara del Vallo, mas ele teve que parar no primeiro porto da rota para se abrigar. O que não se imaginava é que, deste incidente, iria nascer um grande produto.

De fato, foi exatamente nessas circunstâncias que o inglês John Woodhouse, um rico comerciante de Liverpool, provou o vinho local pela primeira vez e adorou. O sabor do vinho de Marsala o fez lembrar os vinhos da Espanha e de Portugal (Sherry e Madeira, respectivamente), tão famosos e muito apreciados nos círculos e clubes ingleses naquela época.

O grande John Woodhouse. Foto: WikiCommons

Dessa forma, Woodhouse logo quis levar uma grande quantidade dele para a Inglaterra. Sendo assim, para evitar que o vinho se alterasse durante a longa viagem, ele adicionou álcool (há quem diga brandy ou Whisky). O fato é que o vinho Marsala foi um sucesso e rapidamente conquistou o mercado inglês, ocupando inclusive o lugar dos vinhos espanhóis e portugueses, visto que estes se tornaram difíceis de encontrar durante as guerras napoleônicas.

Enfim, foi um verdadeiro sucesso. De fato, o próprio Woodhouse voltou à Sicília para iniciar sua própria produção e comercialização de Marsala. Além disso, outros ingleses seguiram o exemplo, como Benjamin Inghman.

Os britânicos estimularam a produção e impulsionaram o aprimoramento das técnicas de produção. Na década de 1940, Vincenzo Florio, já conhecido na região pelo comércio de atum, deu origem à vinícola da família Florio, que se tornará um dos produtores mais famosos de Marsala. De fato, com sua frota de 99 navios, eles exportaram Marsala até para a América do Sul.

A decadência

No final do século XIX e durante boa parte do século XX, Marsala vive infelizmente um período de grave crise de imagem e identidade, devido sobretudo à venda totalmente sem critério por parte de quem, usando o nome deste grande vinho, passoua a vender produtos de baixíssima qualidade que afetaram a sua gloriosa fama.

É apenas graças ao empenho de produtores esclarecidos que o Marsala começa a recuperar sua reputação e em 1969 nasce o Marsala DOC, que finalmente protege a sua produção.

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Que tipo de vinho é o Marsala?

O Marsala é um vinho fortificado, ou seja, um vinho ao qual é adicionada alguma aguardente vínica durante a produção.

De acordo com o sistema de qualidade italiano, o Marsala é um vinho Denominazione d’Origine Controllata (DOC – Denominação de Origem Controlada) cuja produção é regulamentada por uma disciplina específica, em que são definidos os tipos e as características de cada estilo.

Note na garrafa a denominação “DOC”

 

De fato, o vinho Marsala é produzido em muitos estilos diferentes. Além disso, eles também podem ser classificados de acordo com o teor de doçura.

No entanto, apesar do escasso interesse que durante anos o caracterizou, o Marsala é um vinho muito complexo, tanto na produção como, sobretudo, na hora de ser degustado, provavelmente como poucos vinhos no mundo.

Assim, falar de Marsala significa, antes de mais nada, especificar claramente o estilo, pois cada Marsala pode ser considerado um mundo em si.

 

Tipos de vinho Marsala

Os vários tipos de Marsala diferem com base na cor, teor de açúcar e envelhecimento. Se o vinho for feito de uvas brancas (utiliza-se as castas grillo, cataratto, damaschino e inzolia), ele pode ter cor dourado ou âmbar .

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Degustação de Marsala Rubi e Ambar na vinícola Pellegrino

 

Ainda, trata-se de Marsala rubi quando feito com uvas pretas (as regras preveem a utilização de castas negras, como pignatello, nero d’Avola e nerello mascalese, vinificado em tinto com adição de no máximo 30% de uvas brancas usadas nos outros dois tipos).

Com base no teor de açúcar, o Marsala pode ser seco, semi-seco ou doce. Além disso, ele é classificado como vinho licoroso, visto que o seu teor alcoólico está entre 15% e 22%.

 

Finalmente, por ordem de envelhecimento, os vinhos Marsala dividem-se em:

  • Marsala Fine, envelhecido por pelo menos um ano, dos quais pelo menos oito meses em barris de madeira;
  • Marsala Superiore, envelhecido por pelo menos dois anos em barris de madeira;
  • Superiore Riserva, envelhecido por pelo menos quatro anos em barris de madeira;
  • Soleras ou Marsala Vergine, envelhecida durante pelo menos cinco anos em recipientes de madeira;
  • Marsala Vergine Stravecchio, ou Soleras Stravecchio ou Soleras Riserva, envelhecido por pelo menos dez anos em barris de madeira.

Os dois últimos, Marsala Vergine ou Soleras, devem ter um teor alcoólico mínimo de 18%. Além disso, na sua transformação não é possível adicionar mosto cozido, mosto concentrado e “sifão”, isto é, um mosto que deriva de uvas quase secas com adição de destilado de vinho.

Por outro lado, é possível adiconar esse produtos ​​em vinhos Marsala menos valiosos, para melhorar seu sabor e aroma.

 

Como é feito o Marsala

É possível produzir Marsala de acordo com as regras que displinam a denomicação DOC acima mencionada, apenas na província de Trapani, com exceção dos municípios de Alcamo, Pantelleria e Favignana.

Depois de pronto, o vinho base é “curtido”, ou seja, adiciona-se álcool etílico de origem vegetal ou mistela ao mosto cozido ou concentrado. Por esta razão, o Marsala também é chamado de vinho curtido.

Obviamente, o Marsala é um vinho que também se presta a longos afinamentos que transformam aromas, sabor e cor.

De acordo com a divisão do Marsala, o envelhecimento acontece da seguinte maneira:

1. Marsala Fine: tem pelo menos um ano de envelhecimento; teor alcoólico não inferior a 17%; existe nas três variações Âmbar (com a obrigação de adicionar pelo menos 1% de mosto cozido), Ouro e Rubi (nos quais é proibido adicionar mosto cozido).
2. Superiore: mínimo 2 anos de envelhecimento; teor alcoólico não inferior a 18%; existe nas três variações, assim como no Fine.
3. Superiore Riserva: mínimo 4 anos de envelhecimento e com as demais características iguais ao tipo Superiore.
4. Vergine e/ou Soleras: envelhecimento mínimo de 5 anos; teor alcoólico não inferior a 18%;  não se pode adicionar mosto cozido, mosto concentrado e mistela.
5. Vergine Stravecchio / Riserva ou Soleras Stravecchio / Riserva: mínimo de 10 anos de envelhecimento e proibição de adição de mosto, como no anterior.

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Sem dúvida o Marsala é um vinho complexo e multifacetado, não é simplesmente um vinho de meditação. No entanto, graças às suas múltiplas variedades, podemos apreciá-lo em diferentes momentos sociais e combiná-lo com diversos pratos, desde queijos a docinhos. Cabe a você escolher o seu Marsala!

 

 

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