O Mosteiro dos Beneditinos de Catânia é um daqueles lugares que merecem uma visita. Uma jóia não muito conhecida no centro da segunda maior cidade da Sicília.
Antes de tudo, Catânia e seus monumentos em estilo barroco tardio fazem parte da lista de bens Patrimônio da Humanidade reconhecidos pela Unesco, juntamente com outras cidades do sudeste da Sicília. E um desses monumentos é o Mosteiro dos Beneditinos, um lugar que se pode conhecer através de uma visita guiada.
No entanto, antes participar da visita guiada pelo mosteiro, li um romance. A esta altura você deve estar se perguntando: “sim, e daí?”. Explico: Não queria de jeito algum visitar o Mosteiro dos Beneditinos de Catânia sem ler o romance histórico I Viceré, um clássico da literatura italiana ambientado na segunda metade do século XIX.
I Viceré, de Federico de Roberto
Em síntese, o livro narra a saga de uma grande família aristocrática siciliana, os Uzeda, em uma Sicília feudal e monárquica. Como alguns personagens são monges beneditinos, boa parte do romance descreve em maneira minuciosa e sarcástica a vida dos religiosos. De fato, o escritor, Federico de Roberto, foi bibliotecário do mosteiro por muitos anos e tinha acesso aos documentos do mosteiro. Assim, ele pôde descrever em maneira excelente a vida (quase transgressora) dos monges do Mosteiro dos Beneditinos de Catânia.
Infelizmente o romance não foi publicado no Brasil e, por isso, é difícil que alguém aí o leia antes de visitar o Mosteiro. De qualquer forma, tendo lido ou não, é um lugar que merece entrar no seu roteiro em Catânia, principalmente de quem adora arquitetura e história.
Quem realiza as visitas turísticas ao Mosteiro dos Beneditinos é uma associação, a Officine Culturali e eles têm proposto muitas iniciativas, não só no mosteiro, mas também em outros monumentos de Catânia, para melhorar a fruição desses espaços.

Deslumbrante fachada do mosteiro. Tenho paixão por esse barroco todo!
Minha guia se chamava Cláudia e é aquele tipo de pessoa que consegue capturar a atenção de tal forma, que eu quase esqueci de fotografar os ambientes. De fato, acabei não fotografando muita coisa, mais um motivo para voltar lá em outras ocasiões.
A história do Mosteiro dos Beneditinos de Catânia
O Mosteiro dos Beneditinos de Catânia foi fundado em 1558, mas daquele original hoje restam somente a parte subterrânea.
É que Catânia sofreu duas catástrofes naturais no final do século XVII. Primeiro a erupção do Etna em 1669 que destruiu boa parte da cidade, depois, em 1693, o famoso terremoto que acabou com o sudeste da Sicília. Em 1702 o mosteiro foi reconstruído por cima dos destroços do antigo convento, tornando-se o segundo maior da Europa, título que detém até hoje. Era o período de ouro do barroco tardio siciliano e foram as características desse tipo de arquitetura a terem feito com que o mosteiro entrasse na lista de bens Patrimônio da Humanidade da Unesco.

Vejam a beleza desse pórtico: o contraste da pedra escura, típica da área de Catânia, com a pedra clara proveniente de Siracusa, e as janelas do mosteiro em estilo barroco siciliano.

Por outro ângulo…
O mosteiro só funcionou como tal até 1866, ano em que foi confiscado pelo Estado Italiano e os monges tiveram que abandonar o lugar. Naquele período várias propriedades foram retiradas das mãos da Igreja e vendidas ou entregues às prefeituras das cidades. Assim, o Mosteiro dos Beneditinos passou a ser propriedade da cidade de Catânia e com isso, ao longo dos anos, perdeu parte da sua vastidão. Em um pedaço do terreno construíram um hospital, em outro uma praça. Por fim, dividiu-se outro pedaço em lotes, os quais foram vendidos. Certamente o mosteiro passou por poucas e boas!
Uma beleza incrível
“Su per lo scalone reale, tutto di marmo, il ragazzo guardava le pareti decorate di grandi quadri a mezzo rilievo di stucco bianco sopra fondo azzurrognolo […]” – I Viceré, cap. 6.
A frase acima se refere a essas escadarias e eu a traduzo assim: “subindo a grande escada real, toda de mármore, o menino olhava para as paredes decoradas com grandes quadros em meio-relevo de estuco branco sobre um fundo azulado”. Esses quadros retratam, entre outras coisas, o martírio de Santa Ágata, São Nicolau de Bari e o batismo de Jesus.
Muitos viajantes do Grand Tour no século XVIII deixaram importantes descrições do mosteiro e da vida que levavam os monges, muitas vezes descritos como gordinhos, descarados, adeptos à vida mundana. Em suma, eles viviam uma vida que nada tinha a ver com as regras ditadas pela Ordem de São Bento. Imaginem que cada um deles comia, por exemplo, pelo menos 800g de carne por dia e os arancini eram descritos como “do tamanho de um melão”!
Hoje em dia, além de ter sido em parte restaurado, o mosteiro é sede do Departamento de Ciências Humanas da Universidade de Catânia. De fato, enquanto visitávamos, víamos um vai e vem de estudantes e professores.

Corredores ao longo dos quais se localizam as celas dos monges. Hoje são salas de aula, escritórios de professores, secretarias, etc.

Sala de leitura: sorte de quem pode estudar em um lugar assim. Um detalhe, neste lugar, subterrâneos do mosteiro, durante as escavações encontraram os restos de uma residência da época do Império Romano!
A visita ao Mosteiro dos Beneditinos de Catânia
Propositalmente não vou revelar os detalhes de cada ambiente, afinal estragaria a surpresa para quem visita o Mosteiro. Além disso, os guias explicam tudo tão bem e em maneira bastante divertida, o que torna a visita muito prazerosa. Não sei se essa é a regra, ou minha guia é que era muito faladeira, mas a visita durou cerca de 1h40min sem que eu tenha me dado conta de que tanto tempo tinha passado.
Por fim, na saída, dei uma passada na lojinha da Officine Culturali. Além de livros relacionados à Sicília em geral, eles vendem várias coisinhas graciosas, lembrancinhas, camisetas, tudo bem diferente do que a gente está acostumado a ver por aí nas normais lojas de souvernir.
Info úteis
- As visitas guiadas acontecem todos os dias e partem a cada hora, das 9 às 17h. Em agosto, porém, o horário passa a ser das 11 às 18h;
- O bilhete inteiro custa 8 euros;
- Para mais informações, visite o site oficial do Mosteiro dos Beneditinos;
- Quem tiver curiosidade (e entender bem o italiano) pode ler online a versão em pdf do romance I Vicerè. Sem dúvida, a parte que melhor descreve o mosteiro é o capítulo 6.
IMPORTANTE:
Para entrar nos museus e parques arqueológicos da Itália, é necessário apresentar o Green Pass, isto é, o certificado de vacinação da COVID-19, ou resultado de RT-PCR/antígeno negativo (máx. 48h). Por outro lado, os visitantes de países que não adotaram o Green Pass podem entrar nos museus e locais de cultura mediante apresentação de certificação equivalente (ou seja, que apresente os mesmos dados do green pass) e que, no caso de vacinação, ateste o uso de uma das vacinas autorizadas na Itália (Pfizer, Moderna, AstraZeneca e Janssen). Além disso, também será necessário mostrar um documento de identidade. Estas medidas valem se aplicam a todas as pessoas com idade a partir de 12 anos.
Como chegar ao Mosteiro dos Beneditinos de Catânia
O Mosteiro fica a apenas 800m da Piazza Duomo (catedral), na Piazza Dante.
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Olá, Patrícia. Descobri este blog por acaso e fico feliz porque já estive na Sicilia uma vez e não visitei Catania. Só o aeroporto!, Agora posso descobrir mais lugares interessantes pra uma próxima viagem. Baixei o livro em PDF também. Estudo italiano e espero poder lê-lo. Grata
Oi Cleide!
Tomara que você volte mesmo!Em Catânia tem muitas coisas interessantes para ver.
A leitura do romance I Vicerè não é das mais fáceis, mas dá pra entender bem como era a sociedade siciliana na segunda metade do século XIX. Eu adorei!
Um abraço,
Patricia
Olá!
Esta visita é realmente imperdível. A Claudia é uma excelente guía e o lugar é uma volta ao passado com toda a sua história incrível.
Oi Patrícia, cada dia você tem trazido novas e excelentes informações que vão compondo meu roteiro.
Catânia está no meu roteiro, inclusive me hospedarei na Casa Etnea ( sugestão sua). Obrigada, estou amando seus posts.
Oi Maria!
Seu comentário me deixou muito feliz! Para mim é importante saber que as informações que eu passo aos meus leitores são úteis.
Um grande abraço,
Patrícia
Patricia excelente matéria, já inclui a visita no Mosteiro na minha viagem à Catânia em outubro, obrigada e parabéns pelo site, as matérias são incríveis e enriquecedoras.
Oi Maria Cristina,
Depois me conta como foi a visita e se gostou!
Um abraço,
Patricia