comidas bizarras

11 Comidas exóticas (ou estranhas) da Sicília

Atualizado em 24/08/2020


Não posso negar que na Sicília existam comidas bizarras, ou simplesmente estranhas ao paladar estrangeiro. Nem mesmo em um lugar que é um verdadeiro paraíso gastronômico, não pode deixar de existir comidas que causam repulsão em algumas pessoas.

Sei que o conceito de “estranho” é estritamente pessoal, pois o que pode ser bizarro para mim, pode não ser para você. Mas aqui vão alguns exemplos de comidas que normalmente causam estranheza em um estrangeiro que visita a Sicília, principalmente quem tem o costume de comer sempre as mesmas coisas.

 

Veja AQUI tudo que eu já escrevi sobre a comida siciliana.

 

Comidas bizarras de Palermo

Na minha opinião, é Palermo a cidade que leva o troféu “Top Comidas Bizarras”. A cidade é conhecida mundialmente por sua incrível comida de rua, porém alguns pratos podem ser um pouco estranhos ao paladar brasileiro.

 

Pani ca meusa

comidas bizarras da SIcília

O sanduíche de baço de boi é a principal “comida de rua” de Palermo. Trata-se de um pão com gergelim, recheado com pedacinhos de baço bovino (e às vezes também pulmão), cozidos lentamente em banha de porco.

Ele é proposto em duas versões: “schietto“, ou seja, somente com a carne; e “maritato“, isto é, com adição de ricota ou queijo caciocavallo ralado grosso.

O pani ca meusa é um clássico da comida de rua de Palermo e eu já falei dele aqui neste post: Lanches para comer na Sicília

 

Frittola

Se você está acostumado a comer torresmo de porco ou outros tipos de comida crocante à moda antiga, não ficará surpreso.

Comidas bizarras da Sicília - frittola
Foto: Giuseppe Romano – FlickR

Frittola é uma coisa que ninguém sabe do que é feito, a não ser o cara que vasculha uma cesta de vime e a vende nas ruas de Palermo. Geralmente serve-se a frittola em um guardanapo com um pouco de suco de limão espremido na hora.

Na verdade, a frittola é uma das mais antigas e populares “comidas de rua”. Na prática, é a carne que fica grudada nas carcaças dos bovinos e outras miudezas, que primeiro é fervida e depois frita, até adquirir consistência e sabor semelhantes aos do torresmo.

 

Stigghiole

Stigghiole são tripas de cordeiro ou de bode, enroladas em cebolinha, presas em um espetinho e assadas diretamente em uma chapa bem quente.

Foto: Marco Crupi – FlickR

Elas são previamente lavadas com água e sal para limpar as vísceras e então temperadas com ervas aromáticas.

Apesar de serem de origem grega (derivam do kokoretsi, um prato popular grego e que também se preparava nas antigas cidades gregas da Sicília), o nome Stigghiola vem do latino extilia, que significa intestino, e cujo diminutivo é extiliola. Daí a origem da palavra.

Enfim, é possível encontrar as stigghiole em Palermo, mas também em outras localidades do centro e oeste da Sicília, como em Castellammare del Golfo, Petralia Soprana, etc.

 

Quarume

Expressão da tradição gastronômica palermitana de preparar entranhas, o quarume (ou caldume) também está ligado aos tempos da dominação grega da Sicília. O nome deriva da antiga palavra grega cholàdes, usada para indicar tripas e outras miudezas.

comidas bizarras da Sicília

Ao contrário de pratos como o pani ca meusa, não é fácil encontrá-lo na cidade. Embora haja alguns restaurantes que o sirvam, o quarume é uma comida de rua, que se encontra principalmente nos carrinhos ou nos mercados de rua.

Como podemos imaginar, a tripas de vaca ou vitela são o principal ingrediente do prato. Elas são cozidas em água salgada, dentro de um grande caldeirão chamado quarara (daí o nome quarume), juntamente com vários vegetais, como cenoura, cebola, tomate, aipo e salsinha.

Dizem que o resultado é um caldo saboroso (nunca provei, não posso opinar) e de cheiro inconfundível, feito de pedaços duros, macios e ásperos ao mesmo tempo: uma peculiaridade que torna o prato único em sua espécie.

O quarume é popular em Palermo, mas também dá para encontrá-lo em Catania.

 

Mussu e carcagnolu

Antigamente, quando os mais ricos compravam os melhores cortes da vaca e do porco, os pobres ficavam com o que sobrava, o chamado “quinto quarto”, literalmente tudo que deveria ser descartado.

Foi daí que surgiram muitos pratos realizados com as miudezas e o mussu e carcagnolu é um desses.

Basicamente trata-se de um prato feito com os restos, como as cartilagens do focinho e das patas, o pênis, a mandíbula, a língua, a orelha.

É possível encontrar esta iguaria já pronta nas barracas das feiras livres de Palermo, cortada em pedacinhos e temperada com bastante sal e limão. Mas também é fácil encontrá-la em açougues já cozida e pronta para ser temperada.

Existem duas versões do “mussu e carcagnolu”. Uma leva apenas as cartilagens (patas e focinho) e é temperada apenas com sal, limão e uma pitada de pimenta do reino.

Já a versão mais completa, com a mandíbula, a língua e outras partes carnudas, só se encontra nos açougues e leva também azeitonas, aipo, cenoura crua fatiada, cebola roxa, picles, azeite, sal e pimenta.

Enfim, é uma verdadeira salada mista!

 

Comidas bizarras encontradas em Catania

A cidade de Catania tem uma gastronomia popular, iguarias que se comem na rua, sentados na calçada.

Não se trata de uma simples comida de rua, mas de um uso cultural ancestral e arraigado, os chamados arrusti e mangia (literalmente, assa e come), lugares com uma churrasqueira na rua, que dão vida aos pratos mais folclóricos da cultura gastronômica siciliana.

 

Carne de cavalo

Sem dúvida alguma o carro-chefe da cultura do “arrusti e mangia” de Catania é a carne de cavalo, uma delícia de cor vermelho vivo, suculenta, de sabor indiscutível, tendente ao adocicado e que deve ser comida mal passada, se possível.

Se você, assim como eu, não tem preconceitos, saiba que só existe um lugar na Itália onde ela é santificada, adorada, reverenciada: Catania.

Geralmente assada na brasa, a carne de cavalo pode ser consumida à mesa ou em pé, dentro de um sanduíche. Em todos os casos, seja um bife ou uma polpetta (um bolinho, melhor modo, na minha opinião), o “salamarigghiu” – uma mistura de azeite, vinagre, sal e abundante orégano que o cozinheiro pincela na carne –  é fundamental.

Você pode experimentar a carne de cavalo em Catânia em diversos restaurantes, principalmente aqueles nos arredores do Castelo Ursino, ou ainda na famosa Via Plebiscito, um lugar muito, mas muito popular onde, no cair da noite, aqueles lugares que de dia são açougues, à noite viram uma espécie de boteco com churrasqueiras na frente.

Já se você prefere algo mais limpinho e organizado, encontrará carne de cavalo na versão hamburger moderno no FUD Bottega Sicula.

 

Sangeli

Esse é certamente familiar aos caros leitores portugueses e também a alguns brasileiros. O sangeli lembra a morcela ou ao chouriço de sangue.

O sangeli, que em italiano se chama sanguinaccio, é uma linguiça feita com o sangue do porco, sal e algumas especiarias.

Pra fazer esta linguiça, cozinha-se o sangue com água, sal e alguns temperos. Depois de cozido, o invólucro tem a aparência de um grande salame bem escuro.

 

Zuzzu, a gelatina de porco

A gelatina de porco ou, como dizem os sicilianos, a “liatina”, mas também suzu ou zuzzu é outro prato típico que utiliza as partes menos nobres do porco.

Geralmente usa-se as patas, a cabeça, o rabo, ​​língua e orelhas, das quais se obtém uma gelatina saborosa que se come como entrada e como reforço para um prato à base de queijo ou ovos.

 

Sáusa

Nem só bovinos e suínos, na Sicília tem comidas bizarras também à base de peixe!

A sáusa é um prato feito com partes da cabeça do atum: língua, olhos, mandíbulas, boca, guelras, bochechas, cartilagens, partes gordurosas do pescoço (exceto a parte dorsal, que é um corte fino do atum vermelho).

Tudo isso é salgado e colocado parar curar por 30-40 dias, depois fervido e finalmente deixado por mais 48 horas em água, gelo e limão. Após o enxágue, tempera-se com óleo, limão, salsinha e pimenta malagueta.

Hoje em dia, este prato é difícil de encontrar até mesmo no histórico mercado de peixes de Catânia. Outrora considerada “comida dos pobres”, hoje custa muito porque se prepara quase por encomenda, para verdadeiros amantes desta iguaria.

 

Alga Mauru

O mauru é um prato do leste da Sicília que se prepara principalmente em Acireale e Catânia.

É um prato típico à base de algas vermelhas, com longos filamentos calosos e comestíveis. Antigamente, as pessoas coletavam as algas (normalmente da espécie Chondrus crispus) diretamente do mar e as enxaguavam para comê-las na hora.

Vendido em quiosques especiais e consumido cru, temperado com suco de limão espremido na hora, hoje em dia o mauru é tão raro que é um verdadeiro deleite para um gourmet, mas infelizmente estas algas quase desapareceram devido à poluição.

 

Outras comidas bizarras da Sicília

Um pastel doce com amêndoas, canela, chocolate e… carne!  Trata-se da ‘mpanatigghi, um doce de nome impronunciável típico de Modica.

As mpanatigghi de Modica

A história da mpanatigghi é bem peculiar. Segundo a lenda, as freiras de um convento de Modica inventaram esta estranha sobremesa para camuflar a carne, com pena dos pregadores debilitados pelo período da Quaresma, quando era proibido comer carne. Com este doce, elas revigoravam os religiosos desavisados, sem fazer com que eles violassem as regras!

 

***

Sem dúvida alguma a minha comida preferida destas que eu citei é a carne de cavalo. E você, me conta quais destas já experimentou ou provaria sem preconceito algum!

 

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3 comentários

  1. M. Céu Fialho

    Vi, sim, obrigado!
    Abraço
    M. Céu Fialho

  2. M. Céu Fialho

    Completíssimo, mais uma vez! Você me deu água na boca. Mas não sei se os meus companheiros de viagem (brasileiros, por tal sinal! 🙂 estarão afim de comida de rua.
    Aliás eu, se tivesse juízo, também não estaria, depois de uma muito má experiência que tive com comida de rua, em Madagáscar…
    Veremos!
    Abraço
    M. Céu Fialho

    • Patricia Kalil

      Olá Céu,

      Acredito que os portugueses tenham uma mente mais aberta para experimentar estas comidas do que os brasileiros!
      Você chegou a ver minha resposta ao seu outro comentário?

      Um abraço,

      Patricia

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