Baronesa de Carini: o mistério por trás de um crime brutal


Atualizado em 19/11/2020

Aquele da baronesa de Carini é um dos fantasmas mais “famosos” da Sicília. Vamos conhecer a sua história?

A cidade de Carini, a cerca de 30km de Palermo, é famosa por seu vinho, seu castelo e uma tragédia familiar que aconteceu em 1563: Cesare Lanza, Barão de Trabia e Conde de Mussomeli, assassinou sua própria filha – a Baronesa de Carini – comentendo aquele que era chamado de “crime de honra”.

Castelo de Carini
Foto: Giuseppa di Bella – WikiCommons

 

Quem foi a Baronesa de Carini?

Laura Lanza di Trabia, Baronesa de Carini, nasceu em Palermo em 7 de outubro de 1529.

O pai de Laura, Cesare Lanza, casou-se duas vezes com mulheres muito ricas. A primeira foi Lucrezia Gaetani, mãe de Laura, viúva e já com uma “certa idade” para época. Ela foi prometida a ele em 1521 quando Cesare ainda era criança, casando-se com ele quatro anos depois. Lucrezia morreu em 1546 e então o barão se casou com outra viúva, Castellana Centelles, uma nobre de origem espanhola.

Violento e inescrupuloso, Cesare Lanza não respeitava quaisquer normas éticas e morais, não tinha problemas nem em tirar a vida das pessoas. No entanto, ele sempre manteve uma imagem de homem de bem e religioso, características que a sua condição social exigia.

Laura, aos 14 anos de idade, também teve um casamento de conveniência, arranjado, com Vincenzo La Grua Talamanca, barão de Carini. O rapaz pertencia a uma das famílias sicilianas mais antigas e nobres, mas com dificuldades econômicas, então o dote de Laura era muito bem-vindo.

Assim, ele acabou virando sócio nos negócios do sogro rico, mas sempre em posição de subalterno e, aparentemente, usando também o dinheiro do dote de sua esposa. Segundo as más línguas, Vincenzo La Grua era um idiota, sem personalidade, totalmente dominado pelo sogro.

Do casamento de Laura e Vincenzo nasceram seis filhos: Eleonora, Lucrezia, Maria, Cesare, Ottavio e Tiberio. Mas para Laura, o papel de mãe não conseguiu se sobrepor àquele de esposa infeliz de um inepto, que prosperava à sombra do sogro. Por sinal, o pai de Laura acabava passando longos períodos em Carini, apesar de ter um esplêndido palácio em Palermo, ocupado com a administração de seus bens.

Baronesa de Carini
Em 1975 e em 2007 a RAI produziu uma minissérie inspirada na história da Baronesa de Carini.

 

A história de um duplo homicídio

A “bomba” explodiu em 4 de dezembro de 1563, dia em que Cesare Lanza decidiu visitar sua filha em Carini. Laura tinha então 34 anos, mas há bem 16 anos mantinha uma relação com um certo Ludovico Vernagallo, primo do marido. Inclusive há teorias que dizem que todos os filhos de Laura eram de Ludovico, uma vez que Vincenzo La Grua era supostamente estéril. 

Enfim, quando Cesare Lanza estava chegando ao castelo, enviou um criado para avisar Laura e o marido de sua chegada. Ao saber da notícia, Vincenzo La Grua foi comunicá-la à sua esposa, encontrando-a na cama com Ludovico. A princípio, mesmo pegando-a no flagra de adultério, ele não fez nada. Na verdade, ele esperou a chegada do sogro, para depois decidirem juntos o que fazer.

Cesare Lanza, mais uma vez confirmando seu caráter violento e implacável, imediatamente decidiu matar a própria filha e o amante. Depois de cometer o crime atroz, ele abriu as portas do quarto de Laura, convidando sua comitiva e servos para ver a cena horrível.

Os corpos dos dois amantes foram recompostos e levados à Igreja Matriz de Carini. Antes que os dois jovens fossem enterrados, o barão exigiu que os corpos fossem expostos em praça pública para deixar claro para os habitantes da cidade, talvez coniventes com aquele adultério, que a honra de seu pai e da família Lanza fora redimida com a morte de Laura e seu amante. 

 

Nenhuma justiça para a Baronesa de Carini

Vocês devem estar se perguntando se Cesare Lanza foi preso ou o que aconteceu com ele. A resposta é: nada.

Na verdade, o vice-rei da Sicília na época, Don Juan de la Cerda, assim que soube dos crimes, imediatamente informou ao tribunal espanhol (na época a Sicília era dominada pelos espanhóis). Don Cesare Lanza e o Barão de Carini foram banidos e seus bens apreendidos.

No entanto, Cesare Lanza apelou para o soberano Filipe II e, em um documento que pode ser considerado uma verdadeira confissão do crime, explicou os motivos que o levaram, juntamente com o genro, a massacrar os dois amantes. Ainda, valendo-se das regras então vigentes sobre a flagrância do adultério (morte por honra), pediu perdão, o qual lhe foi concedido, recuperando assim todos os seus bens.

 

A mensagem de Cesare Lanza:Sacra Catholica Real Maestà, don Cesare Lanza, conte di Mussomeli, fa intendere a Vostra Maestà come essendo andato al castello di Carini a videre la baronessa di Carini, sua figlia, come era suo costume, trovò il barone di Carini, suo genero, molto alterato perché  avia trovato in mismo istante nella sua camera Lodovico Vernagallo suo innamorato con la detta baronessa, onde detto esponente mosso da iuxsto sdegno in compagnia di detto barone andorno e trovorno detti baronessa et suo amante nella ditta camera serrati insieme et cussì subito in quello stanti foro ambodoi ammazzati.
Don Cesare Lanza conte di Mussomeli”.
 
Tradução:

“Sacra Católica Real Majestade, Dom Cesare Lanza, conde de Mussomeli, faz entender Vossa Majestade que tendo ido ao castelo de Carini para ver a Baronesa de Carini, sua filha, como era seu costume, encontrou o barão de Carini, seu genro, muito alterado porque naquele mesmo instante havia encontrado Lodovico Vernagallo, amante com a dita baronesa, então o dito expoente movido por justa indignação na companhia do dito barão foi e encontrou a dita baronesa e seu amante no quarto firme trancados e imediatamente naquele instante foram ambos mortos.” Don Cesare Lanza conte de Mussomeli.

O marido de Laura Lanza também foi absolvido e casou-se novamente em 4 de maio de 1565. Ele reformou alguns cômodos do castelo e apagou os vestígios que poderiam lembrá-lo de sua primeira esposa. Além disso, ele deserdou todos os filhos, pois tinha certeza que não era o pai dos mesmos.

Baronesa de Carini
Imagem de “O amargo caso da Baronesa de Carini”, produção de 1975 da RAI.

 

O fantasma da Baronesa de Carini

Apesar de ter passado mais de quatro séculos, os acontecimentos trágicos ainda hoje causam um certo medo.

O espírito de Laura Lanza ainda estaria vagando pelo castelo onde ela foi tão infeliz? Muitos têm certeza de que a bela jovem ainda está lá, exigindo justiça.

Quando Cesare Lanza golpeou Laura e perfurou seu coração, ela levou a mão ao peito para estancar o sangue que jorrava e se apoiou numa parede. A marca da mão ensanguentada ficou impressa na parede da sala onde ocorreu o crime, na ala oeste do castelo. 

Algum tempo atrás, equipes de caçadores de fantasmas foram até o castelo em busca de pistas sobre a existência de entidades sobrenaturais. Parece também que, durante essas explorações, eles realmente encontraram alguns fenômenos estranhos e ouviram uma voz humana associada à de Ludovico.

Além disso, existem numerosos testemunhos de avistamentos de sombras estranhas e do acontecimento de alguns fenômenos insólitos, como a queda repentina na temperatura.

Leia também: O Castelo de Caccamo e o fantasma de Matteo Bonello

 

Um mistério de quase 500 anos

Fantasmas à parte, a história do assassinato da Baronesa de Carini e seu amante ainda é um grande mistério. Tudo isso que eu contei acima são teorias elaboradas por pesquisadores, com base nos documentos da época e nas histórias que cantavam os menestréis sicilianos.

Isso porque o crime foi imediatamente encoberto, em parte porque Cesare Lanza era um homem poderoso, em parte porque o crime de honra era tacitamente justificado na época. Os abusos cometidos contra a pobre Laura, porém, não terminaram com seu assassinato e o consequente encobrimento, mas fizeram com que seu nome desaparecesse por completo da história da família.

Apesar das tentativas da época de encobertar este duplo homicídio, os contadores de histórias sicilianos continuaram ao longo dos séculos a transmitir as histórias da Baronesa de Carini, narrando esta trágica história e mantendo a sua memória viva para sempre.

Em 2010, o Prefeito de Carini solicitou a intervenção da Associação Internacional de Análise do Crime (ICAA), para a reabertura do caso. Das investigações emergiu que o corpo da Baronessa de Carini não se encontrava na Igreja Matriz de Carini, como se acreditava, mas no centro histórico de Palermo, na cripta da igreja de São Mamiliano.

Baroensa de Carini
Cripta da família Lanza e o presunto sarcófago de Laura Lanza

 

Depois de analisar as muitas capelas das duas famílias em busca de tumbas, o ICAA chegou à conclusão de que a moça adormecida, esculpida no mármore do sarcófago, era Laura Lanza.

 

A visita ao Castelo de Carini

Se você ficou curioso e um dia deseja ver o lugar da atrocidade pessoalmente, saiba que é possível visitar o castelo de Carini.

Infelizmente poucas coisas são originais lá dentro e ele sofreu algumas reformas. No entanto, se você gosta de lugares com mistério, vale o passeio.

Ainda, durante o verão são oferecidas visitas noturnas e eventos temáticos.

Castelo de Carini
Foto: WikiCommons

Horário de abertura:

  • De outubro a maio: Das 9 às 13h e das 15 às 19h. Aos sábados fica aberto até as 23h30.
  • De junho a setembro: Das 9 às 13h30 e das 16 às 20h. Aos sábados fica aberto até as 23h30.

Bilhete:

  • O ingresso inteiro custa €3,50. Menores de 18 anos e maiores de 65 anos pagam 1 euro.

 

 

 

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Um comentário

  1. Maria do Céu Fialho

    Brrrr, que coisa sinistra!

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