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Tour em Palermo

Um tour em Palermo para conhecer a cultura Anti-Máfia

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A data 23 de maio de 1992 te diz alguma coisa? E 19 de julho? Para mim eram só datas como outras qualquer, até que vim parar na Sicília e descobri que essas datas têm um significado profundo e marcaram a vida de milhares e milhares de sicilianos.

No dia 23 de maio de 1992 morria em um atentado o juiz anti-máfia Giovanni Falcone, sua esposa Francesca Morvillo e três agentes da escolta. Eles voltavam do aeroporto de Palermo e, quando passavam próximo à saída para Capaci, na autoestrada Palermo-Trapani, os carros blindados foram atingidos por uma enorme explosão, acionada por controle remoto.

No dia 19 de julho do mesmo ano, eram assassinados o outro juiz anti-máfia, Paolo Borsellino e mais cinco policiais da sua escolta, também através de uma explosão, desta vez na Via d’Amelio, uma rua de um bairro residencial de Palermo.

Mas por que eu estou contando isso para vocês? Bem, decidi abrir o post explicando em modo resumido os assassinatos dos magistrados anti-máfia Falcone e Borsellino justamente para que se tenha uma mínima ideia do que contra, não só Palermo, mas a inteira Sicília, tem que lutar.

A Sicília e a máfia, quer queira quer não, estão indissoluvelmente ligadas. Infelizmente é assim. A nossa bela ilha com suas praias paradisíacas, paisagens de tirar o fôlego e sítios arqueológicos incríveis, é também famosa mundialmente pela máfia e pelos acontecimentos ligados a ela. Mas, algo que deve ser bem especificado, é que a história do crime organizado caminha de mãos dadas com outra história, aquela do movimento anti-máfia, composto não só por juízes, policiais, advogados, mas também pessoas comuns que combateram, e combatem até hoje contra os abusos da máfia, como por exemplo o pessoal da associação Addio Pizzo.

A Associação AddioPizzo

A associação AddioPizzo nasceu em 2004 a partir da união de 7 amigos que estavam quase terminando a universidade e se perguntavam o que fariam após os estudos, visto que aqui na Sicília é difícil encontrar trabalho mesmo com um diploma nas mãos. Eles se encontraram em um bar e um deles sugeriu abrir justamente um negócio como aquele, um bar. Começaram então a elencar as despesas necessárias para iniciar o negócio e eis que um dos amigos fala que era preciso incluir também o dinheiro que teriam que destinar à máfia, o chamado pizzo.

Eles não abriram o bar, mas a partir daquele item na lista de despesas, o pizzo, decidiram fazer algo para sensibilizar a população, conscientizá-la a não mais pagar a propina. Assim, criaram um adesivo com escrita a seguinte frase:

“Uma inteira população que paga propina à máfia, é uma população sem dignididade”

E colaram esses adesivos nos postes e muros da cidade. Esse foi só o início daquela que se tornaria uma importante associação na luta e na conscientização das pessoas contra a máfia.

Foto: WikiCommons

“Pago quem não paga” é o lema com o qual a Associação AddioPizzo tentou espalhar na Sicília e na Itália a cultura de consumo consciente. Iniciaram tentando convencer a população a comprar somente em lojas que se recusavam a pagar propina à máfia. E deu certo, os comerciantes também começaram a se rebelar, não pagando mais a máfia e esta, por sua vez, percebeu que realmente algo estava mudando. Um exemplo de que a união faz a força e AddioPizzo se tornou uma rede cada vez maior.

 

O que é o “pizzo”?

Pizzo, em poucas palavras, é a propina paga à máfia em troca de “proteção”, mas que proteção não é. A Máfia precisa de dinheiro para se manter, para financiar suas atividades, e um dos modos para obtê-lo e através da propina exigida dos comerciantes e empreendedores.

Em siciliano, a palavra pizzu significa bico. A expressão em dialeto “fari vagnari u pizzu” significa molhar o bico, ou seja, comer no prato dos outros. Sabe aquele ditado, “de grão em grão a galinha enche o papo”? É isso.

A lógica é uma: pagar e calar-se. É a lei que a família mafiosa impõe no território que comanda, tentando controlar tudo e todos. Quem quer trabalhar sem problemas, tem que pagar um “taxa” mensal. Quem não paga, ou atrasa o pagamento, sofre retaliações. Por exemplo, encontram as fechaduras da porta cheias de cola, têm a loja incendiada, sofrem ameaças de morte, etc. É o modo que eles têm de intimidar e fazer com que paguem a propina, por bem ou por mal.

 

Tour em Palermo: como é o passeio Anti-Máfia

Eu já conhecia superficialmente o trabalho da AddioPizzo e desde que soube que eles passaram a oferecer um tour anti-máfia em Palermo, fiquei muito curiosa e, lógico, queria ver como era! Eu adoro Palermo, mas sempre fiz passeios clássicos na cidade. Esse seria um tour completamente inusitado.

De fato, este não é um passeio daqueles tipo turistão. Ninguém vai falar de chefões, dos Vitos Corleones da vida ou de histórias que só aconteceram em Hollywood. Não mesmo. É um tour para quem realmente quer conhecer esse outro lado da cidade e mergulhar nos problemas quotidianos e entender as dificuldades que a população teve (e tem) que passar.

Assim, como se fosse uma turista de passagem por Palermo, reservei meu tour e num sábado, às 10h da manhã, lá estava eu em frente ao Teatro Massimo, eufórica.

Tour em Palermo

Naquele dia o guia era o Stefano, um palermitano apaixonado pela sua cidade e pelo trabalho que faz. Depois de ter verificado que todo mundo que havia reservado já estava ali, ele iniciou o tour, contando a história da associação. Preciso confessar que enquanto ele contava as histórias e citava nomes de pessoas que deram suas vidas lutando contra máfia, uma lagrimazinha escorria atrás dos meus óculos escuros…

Como falei, o tour inicia no Teatro Massimo e de lá seguimos pelas ruas do centro histórico, inclusive parando em algumas lojas cujos proprietários se recusaram a pagar o pizzo, como a chapelaria La Coppola Storta.

Do Teatro Massimo nos deslocamos até o Mercado del Capo, a maior feira livre de Palermo. Ali Stefano nos contou algumas curiosidades da cultura local e nos explicou como até mesmo os feirantes têm que pagar propina e os diversos modos como os mafiosos realizam a extorsão.

Assim, chegamos à Piazza della Memoria, próximo ao tribunal de Palermo, onde um memorial lembra o sacrifício final dos juízes mortos durante a luta contra a máfia. Vítimas de assassinatos da máfia, sem dúvida, mas também muitas vezes isolados e abandonados pelo próprio Estado.

Tour em Palermo

A Piazza della Memoria

Obviamente não vou contar o inteiro tour para vocês, senão perde a graça! Mas o que quero deixar claro é que cada etapa do passeio tem um significado profundo, ligado à história e nos leva a uma reflexão sobre como a máfia age.

O passeio termina na Antica Focacceria San Francesco, onde nos é oferecida uma pequena degustação. A Antica Focacceria foi o primeiro negócio a denunciar seus extorsores. O proprietário é considerado um símbolo da luta contra a máfia e desde 2006, depois da denúncia que levou à prisão de quatro mafiosos, vive sob proteção.

onde comer em palermo

 

Informações úteis

  • Os passeios acontecem aos sábados, às 10h e são realizados em italiano e em inglês.
  • Duração: 3h (na verdade, quando eu o fiz, durou quase 4!)
  • O valor é de 32 euros por pessoa e é preciso reservar alguns dias antes. Reserve AQUI.
Quando você for passear em Palermo, preste atenção nos adesivos de Addiopizzo nas vitrines. Tenha a certeza de que ao comprar algo nessas lojas você não está contribuindo para os cofres da máfia. É um longo trabalho, não só esse da AddioPizzo, mas como de todas as outras associações anti-máfia, mas eles acreditam firmemente no que estão fazendo, inclusive indo às escolas, falando com as crianças, realizando trabalhos de conscientização nos bairros mais difíceis. Só mesmo com a educação dos pequenos se consegue mudar uma mentalidade profundamente enraizada, de que a máfia é invencível.

O adesivo AddioPizzo na vitrine da Coppola Storta.

Uma visita a Sicília e a Palermo em particular, não será a mesma sem aprender um pouco sobre a cultura Anti-Máfia.

 

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3 Comentários

  1. Olá Patricia, muito interessante esse seu post, mas recusar o pagamento da propina não é perigoso para os comerciantes? Houve alguma vingança em razão disso? Fica registrado o tour para uma próxima visita à Sicília, que curtimos bastante. Abraço.

    • Olá Walther,

      Essa mesma pergunta foi feita pelos participantes do tour ao guia. Ele nos respondeu que se um comerciante se recusa sozinho, sim, é perigoso, mas a associação acabou criando uma espécie de rede de força, fornecendo apoio psicológico e legal. A parte mais difícil é convencer os comerciantes, que sim, é possível rebelar-se.

      Um abraço,

      Patricia

  2. Fabuloso!! Fiquei com tanta curiosidade!! quem sabe um dia!!

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