Santuário de Tindari: entre religião e arqueologia

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A Itália é um dos principais destinos de peregrinos do mundo inteiro e seus santuários e lugares de culto, como Assis, Loreto, Paula e Pádua, são visitados por milhões de pessoas todos os anos, católicos ou não. Aqui na Sicília, há um lugar que também recebe numerosos peregrinos. Trata-se do Santuário de Tindari, talvez a principal meta de turismo religioso da ilha.

Meu interesse em conhecer Tindari (pronuncia-se Tíndari) não estava ligado à religião, mas sim à história e à arqueologia. Tyndaris foi uma das últimas colônias gregas da Sicília e está situada em uma posição maravilhosa, com uma incrível vista para as Ilhas Eólias. No entanto, uma vez que eu estava lá, por que não aproveitar para conhecer também a origem e o significado da chamada Madonna Nera di Tindari?

Como acontece em praticamente todos os casos, a história da Madona Negra de Tindari é carregada de lendas e mistérios. A versão mais plausível é que a imagem – esculpida em madeira de cedro do Líbano escuro –  teria sido contrabandeada de Constantinopla por volta do século VIII durante a Iconoclastia, ou seja, o período em o Império Bizantino proibiu a veneração de imagens religiosas.

Uma tempestade teria forçado o navio que carregava a imagem da Madona Negra a atracar no porto de Tindari, que fica na costa norte da Sicília. Depois que as condições do tempo melhoraram, os marinheiros decidiram continuar a viagem, mas misteriosamente o navio não saía do lugar. Resolveram então se desfazer de parte da carga, para que o navio ficasse mais leve. Somente depois que descarregaram a imagem da santa foi que o navio conseguiu sair do lugar. Depois que o mesmo foi embora, a população de Tindari foi logo ver o que os marinheiros tinham deixado no porto. Com muita surpresa, encontraram a imagem de uma Virgem Negra sentada em um trono e com uma criança no colo. Qual o melhor lugar para colocá-la senão o ponto mais alto e mais bonito da região? Assim nasceu o santuário de Tindari, que naquela época já contava com uma forte comunidade cristã.

Em 1544, a antiga igreja foi destruída durante um ataque de piratas. Uma nova foi reconstruída rapidamente e esta durou até o final dos anos 50, quando o número de peregrinos começou a aumentar e aquela igrejinha tornou-se inadequada ao número de fiéis. Em 1979 foi inaugurado o santuário atual, bastante chamativo na minha opinião: rosa, muitos detalhes dourados, vitrais coloridos, em um estilo totalmente diferente das outras igrejas que estamos acostumados a ver na Itália.

Santuário de Tindari, Sicília

Não é permitido fotografar o interior do santuário e, graças a um vigilante que não saía de perto de mim, só pude tirar, rapidamente e escondido, algumas fotos dos vitrais. Não deu para fazer o mesmo com a imagem da Madona Negra, por isso tive que recorrer às imagens disponíveis na internet.

Santuário de Tindari
Vitrais da igreja, modernos como ela.
Madona Negra de Tindari
Na base da estátua está escrito: Nigra Sum, Sed Formosa, “sou negra, mas sou formosa”, uma frase do Cântico dos Cânticos. Foto: WikiCommons

Devo dizer que fiquei impressionada com a quantidade de peregrinos, pessoas de todas as idades, que subiam até o santuário a pé,  em pleno meio dia, considerando o calor escaldante do verão siciliano e a distância de mais de 1km de subida (a partir do estacionamento, imagina quem vem andando de outros lugares).

Não sendo uma peregrina, cheguei até o santuário de ônibus. A cada 20 minutos sai um do estacionamento (passagem incluída na tarifa do estacionamento) que nos deixa lá no alto da colina. Ao descer do ônibus, começa uma sequência de barraquinhas de souvenirs  e insistentes vendedores que vai até poucos metros do santuário.

Não é permitido entrar na igreja com os ombros descobertos ou roupas muito curtas. Para os desavisados, na porta do santuário há um cesto com xales e lenços grandes para amarrar na cintura e transformar em saias longas.

Santuário de Tindari

 

A Lenda

Existe uma lenda por trás da Madona de Tindari que foi passada de geração em geração, e muita gente acredita firmemente nela. Conta-se que uma mãe, desesperada porque a filha estava muito doente, faz uma promessa à Madona de Tíndari para que esta cure a criança. Após ter obtido a graça, a mulher vai até o santuário de Tindari para agradecer, mas ao chegar lá se depara com uma imagem escura. Decepcionada com a cor da Madona, a mulher exclama: “vim de longe para ver uma mais feia do que eu!” E continua a procurar a verdadeira santa milagrosa, uma bonita. Enquanto isso a criança, que estava sozinha, cai de um precipício. Eis então que a mãe volta a implorar à Madona que salve a sua filha novamente. Momentos depois, a criança é encontrada sã e salva, brincando na areia da praia. No lugar, havia se formado um pequeno areal para amortizar a queda da menina. Diante disso, a mãe não tem mais dúvida alguma em relação à santa milagrosa e lhe implora perdão por ter esnobado a sua cor.

 

A Área Arqueológica de Tindari

O santuário foi construído naquela que era a acrópole da antiga Tyndaris, ou seja, o ponto mais alto da cidade.

A poucos metros da igreja, fica a área arqueológica de Tindari, que inclui um museu, um teatro grego e outras ruínas de época romana, mas enquanto a entrada para o santuário é gratuita, o bilhete para a área arqueológica custa 6 euros.

O museu é pequeno e nele estão expostos alguns achados arqueológicos tanto da época da colonização grega, quanto do Império Romano, como objetos de cerâmica, vasos, máscaras, colunas e estátuas.

Museu arqueológico de Tindari, Sicília
Cabeça de uma estátua gigante do século I, representando o imperador romano Augusto.

Fiquei imaginando como poderiam viver bem aqueles gregos/romanos que colonizaram Tindari. A vista lá de cima, para o Mar Tirreno e as Ilhas Eólias, é espetacular.

Área Arqueológica de Tindari, Sicília
Ruínas das termas
Área Arqueológica de Tindari, Sicília
Teatro grego, construído no IV século a.C.
Área Arqueológica de Tindari, Sicília
Essas são as imponentes ruínas da chamada “Basílica”. Apesar do nome, ainda não se sabe a função do edifício, que certamente não era uma igreja.
Área Arqueológica de Tindari, Sicília
Opa! Saí na foto!

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A área arqueológica de Tindari fica aberta para a visitação todos os dias, das 9 às 19h.

 

As Lagunas de Marinello

Eu já sabia que lá de cima teríamos uma vista incrível para as lagunas de Marinello – lagunas criadas pelas correntes marítimas e que cada vez que ocorre uma ressaca, mudam de forma. Uma faixa de areia de 1,5 km mar adentro, visível até pelos satélites, dá uma forma bem estranha às lagunas. Ela também faz parte daquela lenda que contei anteriormente. A menina teria caído lá embaixo e a faixa de areia teria a forma de uma mãe carregando uma criança (???).

Lagunas de Marinello

É uma praia praticamente deserta (vejam que não há ninguém na foto, que foi tirada em um pleno domingo de verão) e que faz parte de uma reserva ambiental, a Riserva Naturale Orientata Laghetti di Marinello. Quem estiver de carro pode ir até lá, deixando o veículo na entrada na reserva e prosseguindo a pé por pouco mais de 1km.

 

Outras dicas

  • O santuário de Tindari fica na costa norte da Sicília, portanto a poucos quilômetros da autoestrada Messina-Palermo. Estive lá quando voltava de Cefalù e ia na direção de Messina, portanto é o típico passeio para quem gosta de inserir uma parada a mais quando se faz uma viagem relativamente longa.
  • Há uma lanchonete e um restaurante (ambos bem simples) para quem quiser comer lá no alto de Tindari. Se bater aquela fome, recomendo muito o arancino com recheio de pistache do Bar del Pellegrino (amei!).

 

Como chegar ao Santuário de Tindari

De carro: O Santuário de Tindari fica a cerca de 60 km de Messina e chegar lá é bem simples, percorrendo a autoestrada A20. Há as indicações para o santuário e ao sair da autoestrada, será necessário percorrer um trecho dentro da cidade e mais outro de subida, muito panorâmico. É necessário deixar o carro no estacionamento (veja o mapa abaixo) e pegar o ônibus até o santuário ou, se estiver pagando uma promessa, prosseguir a pé por mais 1km.

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