Uma viagem de trem ao redor do Etna

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Um passeio bem fora dos roteiros clássicos é dar a volta no Etna a bordo de um trem. A ferrovia Circumetnea, que, como o nome sugere, circunda o Etna, percorre 110 km pelas encostas do vulcão, numa viagem muito sacudida e barulhenta, entre paisagens urbanas e lava solidificada, vinhedos e plantações de pistache. Onde mais é possível fazer uma viagem dessas?

A Circumetnea foi inaugurada em 1895 e surgiu no momento em que se estava delineando a rede ferroviária da Sicília, com o intuito de interligar as isoladas cidadezinhas das encostas do Etna e conectá-las com Catânia.

Como dar a volta no Etna?

E foi justamente em Catânia que iniciou a minha viagem. Da estação Catania-Borgo sai o antiguíssimo trenzinho chamado “littorina“. Escolhi fazer a viagem completa, de Catania a Giarre, ciente que seriam cerca de 4h muito desconfortáveis. O trem é realmente bastante rudimentar e nada tem a ver com o conceito de “trem europeu” que conhecemos.

prontos para dar a volta no Etna
Sem ar condicionado e cadeiras vintage, porém confortáveis, feitas para socializar. Garanta seu lugar na janela, senão, como faz para tirar foto?

A primeira parte da viagem é marcada por paisagens urbanas bem degradadas. Passamos pela periferia de Catânia e pelo pólo comercial de Misterbianco, um trecho que não é bonito de se ver e que deixa um gostinho amargo ao pensar que a Sicília é tão linda, mas tão mal governada!

Ao passar pela cidadezinha de Belpasso já notamos os primeiros sinais de lava solidificada. Em 1669 ocorreu aquela que foi a erupção do Etna mais devastante de todos os tempos. Um forte terremoto fez com que se abrissem fendas em uma parte mais baixa do vulcão e a partir delas começou a escorrer a lava. Esse fenômeno durou cerca de 4 meses e destruiu completamente várias cidades, chegando até Catânia.

O trem vai seguindo sua viagem e noto que a paisagem vai mudando sutilmente. Laranjais vão dando lugar a espinhosas palmas de figo da índia. Entre uma aberração arquitetônica e outra (construções deixadas pela metade), imensos campos dourados me distraem e acabo nem notando que as horas estão passando.

Oliveiras, palmas e lava solidifica. O resumo das paisagens aos "pés" do Etna em uma só foto.
Oliveiras, palmas e lava solidifica. O resumo das paisagens aos “pés” do Etna em uma só foto.

A partir de Adrano (588 metros de altitude), o trem reduz a velocidade a incríveis 30 km/h porque começa uma longa subida até Bronte. Plantas de pistache começam a ser as protagonistas e finalmente avisto o Etna, quer dizer, meio Etna porque a outra metade está coberta por uma nuvem.

Plantações de pistache indicam que estamos nos arredores de Bronte
Plantações de pistache indicam que estamos nos arredores de Bronte
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O Etna resolveu que não vai dar as caras e permanecerá coberto durante a viagem inteira 🙁

A parte do trajeto localizada entre Bronte e Randazzo é aquela de maior altitude. De fato, começa a entrar pela janela um vento mais frio e de repente a paisagem muda totalmente. Os trilhos passam por corredores de lava solidificada quase da largura do trem, tanto que melhor nem arriscar colocar a mão para fora da janela.

Por vários quilômetros, a paisagem se resume a paredões de lava solidificada, tanto de um lado quando do outro dos trilhos.
Por vários quilômetros, a paisagem se resume a paredões de lava solidificada, tanto de um lado quando do outro dos trilhos.
Foto do fotógrafo Giorgio Stagni, que dá bem a ideia da largura do corredor de lava sólida.
Foto do fotógrafo Giorgio Stagni, que dá bem a ideia da largura do corredor de lava sólida.

A chegada em Randazzo prevê uma troca de trem. A pausa, no meu caso, era de somente 20 minutos, mas dá para optar por pegar o trem seguinte, pois Randazzo é uma cidade que realmente merece uma visita. Fica a 753m acima do nível do mar e possui uma vista privilegiada para o Etna. Além disso, sua catedral em estilo normando, é muito peculiar por ter sido inteiramente construída com pedra lávica e, por isso, é de cor escura.

Estação de Randazzo
Estação de Randazzo e o trem-peça-de-museu da Ferrovia Circumetnea
Como era para ter sido a vista se o céu não estivesse coberto. Foto> WikiCommons
Como era para ter sido a vista se o céu não estivesse coberto . Foto tirada da janela do mesmo trem. Fonte: WikiCommons

De Randazzo em diante é só descida e os pés de pistache são substituídos por vinhas. Estamos na área da uva Nerello Mascalese, a qual produz o vinho Etna Doc. Aquilo que, por causa da predominante cor marrom da lava solidificada, parecia uma terra árida e sem vida, dá lugar a vastos vinhedos e, mais adiante, o mar.

Já são quase quatro horas balançando dentro da littorina e me dou conta que a próxima estação é a de Giarre, meu ponto final. O fim de linha da Circumetnea fica em Riposto, 5km depois, mas teria que voltar a Giarre para pegar o trem – desta vez um trem normal – de volta para Catania.

Dar a volta no Etna com o trem da Ferrovia Circumetnea é uma experiência bem inusual e certamente não é um passeio para qualquer pessoa. É preciso saber encarar os altos e baixos do trajeto e a ausência de comodidades do transporte. Não é a mesma coisa de subir até às crateras e ter um contato direta, mas dá para sentir um pouco da passiva e íntima relação que os povoados que vemos passar têm com o vulcão ativo mais alto da Europa.

Percurso do trem da Circumetnea. Foto: Wikipedia
Percurso do trem da Circumetnea. Foto: Wikipedia

Dicas e info úteis:

– O bilhete para o chamado “giro completo dell’Etna”, ou seja, de Catania a Giarre-Riposto custa € 7,50. Para voltar, basta pegar um trem normal na estação de Giarre (para Catania são somente 20 minutos), a menos que você queira voltar de littorina e encarar outras 4h!

– Para chegar à estação de Catania-Borgo, basta pegar o metrô a partir da estação que fica nas proximidades do porto. Na hora de comprar o bilhete, é só informar que pegará o trem da Circumetnea e você não terá que pagar a passagem;

– Quem está em Taormina e deseja fazer esse passeio, tem que pegar um trem na estação Taormina-Giardini com destino à Giarre. O percurso será feito no sentido contrário àquele que eu fiz.

– O trem da Circumetnea não roda nos domingos e feriados;

– Para conhecer todos os horários atualizados, visite o site www.circumetnea.it

– Caso prefira o conforto de uma excursão organizada, na Viator há uma opção de passeio que inclui uma subida ao Etna e uma viagem ao redor do vulcão com a Circumetnea. Saiba mais AQUI!

 

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5 comentários

  1. Essa viagem tem duração de poucas horas, certo? A única cidade em que para é Randazzo? Tem algum site que os horários do trem estejam disponíveis? Vou estar ai perto e gostaria de fazer essa viagem no natal.

    • Patricia Kalil

      Oi Carolina!

      A viagem dura cerca de 4h. Lá no finalzinho do texto tem o link para o site da ferrovia. Observe que escrevi que não há trens nos domingos e feriados. Lembre-se que aqui na Itália, além do dia 25, é feriado também no dia 26/12.
      O trem para em todas as estações, mas é em Randazzo que é necessário fazer a troca de trens (mas isso não acontece em todos os horários). Clique neste link (http://www.circumetnea.it/linee_orari_ferrovia/orario%20al%20pubblico%20invernale%202014-15.jpg) para ver todos os horários. A tabela não é tão simples de entender, mas te explico: Se você pegar o trem das 9:31, vai ver que o fim de linha dele é em Randazzo, pois depois só tem espaços em branco. Consequentemente, verá que o próximo trem que sai de Radazzo em direção a Giarre é às 13:15. Entre um trem e outro você terá tempo de almoçar e dar uma voltinha em Randazzo, cidade que é uma gracinha.
      Um abraço,
      Patricia

  2. Inês Maria Lorenzon

    Oi Patricia, tudo bem?
    Adorei o texto! Você escreve muito bem e dá informações preciosas. Irei para a Itália em 07/10. Minhas bases serão Veneza, Taormina e Roma. Ficarei em Taormina 4 dias. Chegarei em Catania as 19:40 e pelo que pesquisei tem um ônibus pra Taormina no próprio aeroporto. O horário me preocupa um pouco, será que encontrarei ônibus ainda?
    Se você ficasse 4 dias em Tormina o que você não deixaria de fazer de jeito nenhum? Será que consigo ir no Etna de outra forma que não seja esse trem? Nada contra, pelo contrário, gosto exatamente disso, de conhecer o cotidiano e costumes do local, mas acho que 4 horas é perder muito tempo, ou não é?!
    Desde já obrigada pela atenção,
    Inês.

    • Oi Inês, obrigada por suas palavras! 🙂
      Verifiquei no site da empresa que faz a linha Catania-Taormina e o último ônibus sai às 19:45, uma coisa absurda! A menos que o avião chegue antes do horário e sua bagagem saia entre as primeiras, não vai dar tempo. Outra opção seria ir de trem, mas você teria que ir de taxi até a estação central de Catania e de lá pegar o último trem do dia, que sai às 20:45, que é um horário muito apertado. Não sei se você já reservou seu hotel em Taormina, mas no seu lugar eu passaria a noite em Catânia. No fim das contas ter que pegar um taxi para Taormina não é baratíssimo.

      Taormina é bem pequena, você pode reservar um dia para ver a cidade com bastante calma. Em outro, não deixe de fazer uma excursão ao Etna! O passeio de trem é interessante, mas no seu caso, que terá um dia inteiro livre, por que não aproveitar para visitar às crateras do Etna e conhecer o vulcão de perto e não só da janela de um trem? Lá em Taormina você encontrará inúmeras agências que propõem este tipo de passeio, assim como para outros lugares, por exemplo Savoca e Siracusa.

      A propósito de Siracusa, é outro passeio que recomendo. Apesar de ficar um pouco distante de Taormina, há excursões para lá também. Muitas delas incluem a cidade de Noto, joia do barroco siciliano.

      Falando de Taormina em si, é o tipo de cidade para aproveitar cada cantinho, cada esquina. Não deixe de ir ao Teatro Grego e também descer até a praia de Isola Bella. Pode ser que a água já esteja gelada para um banho de mar, mas é um lugar espetacular.
      Faça um passeio também na vizinha Castelmola (dá para ir de ônibus sem problemas) e admire lá de cima o panorama, tomando uma taça de licor de amêndoas, especialidade da cidade 🙂

      Um abraço,

      Patricia

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